Um trabalho silencioso que colocou o tribunal na vanguarda do processo eletrônico

Todos os dias, pela manhã, Bruno Vinícius Soares vem para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde trabalha. Com 32 anos, o colaborador tem nove de casa, mesmo tempo de existência do programa que possibilitou sua contratação. Bruno Vinícius nasceu em Sobradinho, no Distrito Federal, mora com a esposa no Riacho Fundo II e é deficiente auditivo.

Bruno conversa no ambiente de trabalho com Elisângela Alves Cunha, professora de Libras que auxilia os 153 colaboradores surdos do STJ.

Em 2009, ele passou por uma entrevista na Associação do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe), organização não governamental conveniada com o STJ, e foi contratado. No mesmo ano, outros 63 surdos passaram a integrar o tribunal.

A experiência no Tribunal da Cidadania foi a primeira da carreira de Bruno Vinícius, que entrou para a equipe de digitalização de processos – serviço que levou o STJ a se tornar o primeiro tribunal do mundo com o acervo de processos totalmente digital. Ele recorda que, na época, atuavam juntos surdos e ouvintes, para garantir uma boa adaptação ao trabalho.

Aprendizado constante

Os colaboradores surdos do STJ realizam as atividades de digitalização de processos, extração de resumo indicativo dos recursos e cadastramento. Hoje, Bruno Vinícius trabalha no pré-cadastramento de partes e advogados, na Seção de Virtualização de Petições e Processos da Secretaria Judiciária.

“No começo eu aprendi a digitalizar, e foi fácil, o que me motivou muito. Depois aprendi os outros trabalhos, então eu estou me desenvolvendo e crescendo, e me sinto muito bem aqui”, avalia, comunicando-se na linguagem de sinais.

Com tudo o que aprendeu, Bruno Vinícius foi capaz de alçar outros voos. Conseguiu um trabalho no horário contrário ao do STJ, no qual desenvolve novas competências.

“Eu agradeço muito ao STJ por ter nos dado essa possibilidade e acreditar que nós, surdos, somos capazes de fazer um bom trabalho. Nessa parceria, o tribunal nos ajuda e nós ajudamos de volta”, diz ele.

Portas abertas

Segundo o Censo do IBGE de 2010, cerca de 10 milhões de brasileiros têm deficiência auditiva. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) apenas foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão em 2002, por meio da Lei 10.436. A mesma norma designou aos órgãos públicos e empresas vinculadas ao governo a missão de apoiar o uso e a difusão da língua, além da inclusão dos surdos.

Hoje, o STJ emprega 153 deficientes auditivos. Elisângela Alves Cunha, professora de Libras, uma das responsáveis pelo grupo, comenta que o Brasil ainda tem muito a avançar nesse campo.

“Eles têm uma certa dificuldade de integração com as pessoas, e abrir uma porta como essa aberta pelo tribunal faz com que cresçam no mercado de trabalho. Eles querem mostrar que são capazes”, destaca. “Além disso, aqui eles têm interação com os chefes e colegas. É mais do que um emprego, é acolhimento”, conclui a professora.

A série 30 anos, 30 histórias apresenta reportagens especiais sobre pessoas que, por diferentes razões, têm suas vidas entrelaçadas com a história de três décadas do Superior Tribunal de Justiça. Os textos são publicados nos fins de semana.
Fonte: STJ